Existem circunstâncias na vida que nos fazem deixar o corpo e ser qualquer outra coisa que, pela capacidade de instante, são o defeito ideal do momento. Já me aconteceu. Já aconteceu ir contra mim própria, lutar durante um dia contra idealismos com que cresci e me formei, deixar-me levar pela maré para conseguir enfrentá-la num ponto mais fácil. Fácil, onde me esqueci de tudo o que me tirou as forças. Era tão difícil deixar de ser eu que se tornou bem mais fácil esquecer-me. E quando nos esquecemos não há volta que volte. Por mais simulação de lufada de ar fresco que seja, a longo prazo apercebemo-nos que deixamos de ser nós próprios, que foi algo que teve que acontecer com grande intensidade para mudar algo que tinha de ser mudado. Caso contrário, ainda estaria a sofrer pelo incompreensível de anos atrás. Caso contrário, nunca teria conseguido mudar e ver o mundo deste modo mais real. Caso contrário, ainda acreditaria genuinamente (e não só por conveniência pessoal e secreta) que os sonhos se podem tornar realidade e que vai haver um dia em que vou acordar e adormecer feliz.
A ideia de que o passado traz saudade, de que o que era dantes - nós próprios há uns anos, a sociedade de antigamente, os instrumentos mais básicos - era bem melhor, de que já foi e já aconteceu de outro modo mais agradável: não faz grande sentido. Obviamente que existiram e existirão sempre situações mais positivas ou mais negativas, sem dúvida. Errar, acertar, voltar a errar, corrigir, inventar, falhar, esquecer. Faz parte.
Em termos humanos, em relação ao tal saudosismo que separo de todo o resto objectivo, esse está sempre aliado ao esquecimento selectivo do mau ou do bom, que nos faz ter uma ideia muito certa do que se passou, consoante a sensação que predominou na altura. E, ironicamente, quanto mais pensamos, mais nos enterramos nessa mesma ideia e nos confortamos na certeza de que estamos certos. Chama-se a isso limpar o pó.
Em termos de evolução, penso que exiriam muito menos acidentes se os carros não andassem tão depressa e chiassem quando travam. Não só pelo efeito buzina, mas também porque é o carro que nos chama à atenção e, caramba, ser repreendido pelo próprio carro nunca foi muito admirável. Não conheço nenhum GPS que berre com o condutor porque este contornou a rotunda em sentido contrário.
Mas isto sou eu, aqui.
Monday, 20 October 2008
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